Confira a crítica do Médico o o Monstro feita por Lionel Fischer

SEXTA-FEIRA, 25 DE JANEIRO DE 2013

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Teatro/CRÍTICA“O médico e o monstro”

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Risos e reflexões no Café Pequeno

Lionel Fischer

“George Osterman foi membro da Cia. Teatro do Ridículo (Nova Iorque), que foi fundada por Charles Ludlamm, autor de um dos maiores sucessos do teatro brasileiro, “Irma Vap”. O Teatro do Ridículo faz uma ruptura com as tendências dominantes no teatro naturalista e de ação realista. Ele empregou um estilo muito específico, atuando com configurações de palco surrealistas e muitas vezes fazendo um esforço consciente em ser chocante ou perturbador. O Teatro do Ridículo trouxe alguns elementos transformistas, onde homens interpretavam papéis femininos e atrizes papéis masculinos, fazendo de suas montagens espetáculos de vanguarda. Os cenários usados em suas peças eram frequentemente paródias da cultura pop, fazendo uma crítica bem humorada a este universo. A improvisação também desempenhou um grande papel nas produções da Cia., onde o script era tratado apenas como um ponto de partida”.

O parágrafo acima, que consta do release que me foi enviado, está aqui reproduzido na íntegra, pois acredito que possa ajudar os leitores/espectadores a entenderem melhor, em caso de dúvida, as premissas básicas que norteiam o presente espetáculo. Baseado no clássico de Robert Louis Stevenson, “O médico e o monstro” (Teatro Café Pequeno) leva a assinatura de George Ostermann e chega à cena com direção de César Augusto. No elenco, Bruce Gomlevsky, Débora Lamm, Erica Migon, Hugo Resende, Isabel Cavalcanti, Marcelo Olinto e Michel Blois.

Por tratar-se de uma obra por demais conhecida, não julgo indispensável resumir seu enredo – mas os que não leram o original, haverão de se divertir muito com as experiências do Dr. Jekyll, cientista obcecado em encontrar uma fórmula capaz de separar a pessoa de seu próprio modo de agir habitualmente. E tal prodígio acaba se materializando, graças à mescla de uma poção mágica e do intragável café preparado por Minerva, empregada do dito cientista. Como resultante, emerge Edward Hyde, a personificação da maldade.

Tendo por cenário a casa do Dr. Jekyll, seu laboratório e o Cabaré Stravaganzza (não sei se a grafia está correta), a peça exibe, em sua maior parte, passagens impregnadas de um humor ao mesmo tempo escrachado e refinado, exótico e delirante, transportando o espectador para um universo onde tudo parece ser possível, mas jamais previsto. Ainda assim, o texto não deixa de abordar, e até mesmo de forma um tanto sombria, a questão básica que lhe é inerente: a dualidade humana.

Como não sou psicanalista, não ousarei tecer maiores considerações sobre tal tema, já incontáveis vezes abordado por pessoas muito mais competentes do que eu. Ainda assim, creio que o autor da novela original, e mesmo que não o pretendesse explicitamente, nos alertou para o fato de que todos nós contemos no mínimo duas faces, cabendo a nós, metaforicamente, a opção de nos tornarmos um Hitler ou um Mozart…

Com relação ao espetáculo, o diretor César Augusto impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com o material dramatúrgico, criando marcas delirantes e imprevistas, plenas de inventividade, capazes de valorizar ao máximo tanto as passagens mais engraçadas quanto aquelas em que o trágico predomina.

No que diz respeito ao elenco, o naipe feminino tem atuação segura e convincente – Erica Migon (Berenice Braitwain, pesquisadora), Isabel Cavalcanti (Mary Jekill, esposa do doutor) e Débora Lamm (Aculine, mestre de cerimônia do cabaré). Mas os atores, certamente em função de personagens melhores, brilham mais – a exceção fica por conta de Hugo Resende, que interpreta King e protagoniza breves passagens sem maiores possibilidades de uma performance mais expressiva; mas ainda assim o ator em nada compromete.

Com relação aos demais, Marcelo Olinto dá um show na pele da esnobe e irrascível empregada Minerva, tanto do ponto de vista vocal como corporal. O mesmo ocorre com Michel Blois, que encarna a burrinha, linda, sensual e engraçadíssima Lily Gay. Finalmente, Bruce Gomlevsky reafirma seus vastíssimos recursos expressivos, estando impecável na pele do doutor angustiado com suas pesquisas e mais ainda quando se transforma em seu reverso, um homem completamente incapaz de conter seus execráveis impulsos – neste último personagem, cumpre ressaltar que Bruce está absolutamente hilariante.

Na equipe técnica, destaco com o mesmo entusiasmo os irrepreensíveis trabalhos de todos os profissionais envolvidos nesta deliciosa empreitada teatral – Erica Migon e Úrsula Migon (tradução), César Augusto e Fabiano de Freitas (adaptação), Bia Junqueira (direção de arte e cenografia), Luiz Paulo Nenen (iluminação), Antonio Guedes (figurino), Marcelo Alonso Neves (direção musical), Raquel Karro (direção de movimento) e Márcio Mello (visagismo). Cabe ainda destacar a ótima produção capitaneada por Fernando Libonati e Marco Nanini, o que certamente possibilitou à Trupe Produções Teatrais e Artísticas realizar um espetáculo absolutamente impecável.

O MÉDICO E O MONSTRO – Texto de George Ostermann. Direção de César Augusto. Com Bruce Gomlevsky, Débora Lamm, Erica Migon, Hugo Resende, Isabel Cavalcanti, Marcelo Olinto e Michel Blois. Teatro Café Pequeno. Quinta a domingo, 20h.

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