MARYA BRAVO – ÁGUA DEMAIS POR TI

Marya Bravo: Água Demais Por Ti Por Flavio Marinho

Conheço Marya Bravo há muito tempo. Mesmo antes dela nascer. O ano era 1966 e o saudoso Bruni-Copacabana (hoje, um paraíso chamado “Modern Sound”) recebia um bando de pré-adolescentes e adolescentes louco pelos Beatles que, viam, diariamente, das 14hs às 18hs, “Help!”, aos gritos. Uma das fãs mais exaltadas era, justamente, a Lizzie Bravo. Pouco tempo depois, na verdade, um par de anos, a Lizzie sumiu. Cadê a Lizzie? “Foi atrás do sonho, Flávio”, ouvi.

1969. Ano de um dos melhores “álbuns” dos Beatles, “Abbey Road”. Na faixa “Across The Universe”, lá estava o nome dela no coro, para espanto de todos nós: “Lizzie Bravo”. Ela conseguiu! Era impossível acreditar. Às vezes, como num desenho da Disney, o sonho se torna realidade.

Desde então, perdi o contato da Lizzie. Os Beatles acabaram em 1970, fui fazer jornalismo e soube que Lizzie casara com o papa do rock rural, Zé Rodrix, com quem havia tido uma filha, Marya. Já na década de 1990, o jornalismo não fazia mais parte da minha vida – estava metido na atividade teatral até a raiz dos cabelos – quando soube da existência profissional de Marya como atriz de musicais. “Canta pra cacete”, me disseram. “Também, com esse DNA…”, pensei eu. Mas o que não me disseram e o que eu não sabia é que ela era um das nossas melhores atrizes-cantoras, dona de carismática presença cênica e de uma das mais lindas vozes do teatro brasileiro. Qualidades que tive oportunidade de acompanhar de perto quando ela interpretou uma arrebatadora Ângela Maria num musical de minha autoria, “Cauby! Cauby!”

O ano era 2006 e, volta e meia, Marya me falava do sonho de lançar seu primeiro cd, cuja elaboração já rolava há seis anos. Marya canta MPB e musical americano como ninguém, mas, com o “encosto” do rock rural e dos Beatles, Miss Bravo, como não poderia deixar de ser, é roqueira – na alma e no coração. Mas o disco tava difícil de sair.

E não é que, em pleno 2009, com a obsessão das grandes cantoras e com a determinação das grandes atrizes, Marya está conseguindo lançar o seu “Água Demais Por Ti” – nove anos depois? E, deixando de lado todo o carinho pessoal, devo confessar que valeu a espera. A estréia fonográfica de Marya é das mais promissoras que ouvi nos últimos tempos. E olha que o que tenho ouvido de talento emergente nestes três anos graças ao “Som Brasil” não está no gibi…

O CD é bom porque a cantora não nega suas raízes, sua formação, nem seu gosto pessoal. A tal “verdade” que a gente tanto procura num palco está lá, impressa em cada faixa. E a sua verdade promove um encontro de Beatles, Mutantes e Secos & Molhados (coisas que Lizzie sempre colocou para ela ouvir) com o que ela curte no momento: a cena undergound hardcore atual. Esta pororoca de estilos que desembocou em “Água Demais Por Ti” encontrou uma unidade de sonoridade muito em função dos músicos diferentes que ela escolheu para ajudá-la no sonho: nomes de formação clássica juntando-se a outros ligados à contemporaneidade.

Mas não foi nada de “caso pensado”. Como ela levou cinco anos gravando o cd, o conceito dele foi surgindo, aos poucos, meio ao acaso, na medida em que ela ia formando a banda. “Virou quase um disco de banda, admite Marya, quase ao vivo, sem participações, de rock bem tocado.” E muito bem produzido por Carlos Trilha – que trafega, com naturalidade, pelos universos musicais propostos pelo cd.

“Fiz como eu quis, no meu tempo, sem compromissos com o mercado musical – até porque a minha sobrevivência vem do teatro”, confessa Marya. Resultou num disco autoral e muito pessoal sob todos os pontos de vista: grande parte das músicas leva a assinatura da própria cantora. “O disco todo fala de relacionamentos pessoais que não deram certo. A cada desgosto amoroso, eu me rasgava toda e saía uma música.” O resultado são letras que têm a força do vômito e uma comunicação clara, direta, sem rodeios.

Então, entra em cena a cantora. Como é bom – e raro – ouvir uma vocalista de banda de rock que sabe cantar! Além de boa cantora, de voz afinada, belo timbre, volumosa e de grande extensão, ouvimos uma intérprete que não nega a “práxis teatral” e se apropria das letras, como uma boa atriz. Basta ouvir suas muito pessoais regravações de “Fala”, “Pra Você Gostar de Mim” e “Imitação da Vida” pra gente ter certeza disso.

“É até meio irônico que este cd só esteja saindo agora, quando estou casada e feliz e que meu pai já não esteja mais aqui para ouvi-lo”. O sonho de Zé Rodrix, como está bem estampado em seu maior sucesso, “Casa No Campo”, era ter “um filho de cuca legal”. Ele deve estar muito feliz de saber que, mais do que isso, ele teve uma filha de extraordinário talento. Às vezes, os sonhos, realmente, se tornam realidade.

Ficha Técnica do álbum: Produzido por Carlos Trilha Co-produzido por Nobru Pederneiras Mixado e Masterizado por Carlos Trilha (Orbita Studio RJ) Gravado por Carlos Trilha (Orbita Studio RJ) Arranjos Nobru Pederneiras e banda

Serviço:

Marya Bravo

Daniel Martins  – Baixo

Nobru Pederneiras  – Guitarra

Pedro Garcia   – Bateria

21hs todas as sextas de 11 a 25 de junho

Classificação indicativa 12 anos

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